Dom Jaime também é arcebispo de Porto Alegre

Chuvas alertam para cuidado com a "casa comum", diz presidente da CNBB

Da janela daCúria Metropolitana, sede administrativa da Arquidiocese de Porto Alegre (RS),o arcebispo dom Jaime Spengler observa a chuva voltar a cair com força sobre acapital gaúcha.

“Teremosdias ainda muito difíceis pela frente”, comentou o religioso católico na últimasexta-feira (10), quando as consequências dos temporais já tinham ceifado aomenos 116 vidas e deixado 70.772 pessoas desabrigadas em todo o estado. Nomomento da publicação desta entrevista, os números oficiais já chegavam a 143 e81.170, respectivamente.

 

A dimensãoda tragédia fez com que o papa Francisco ligasse para dom Jaime, às 11h37 doúltimo sábado. “Manifesto minha solidariedade em favor de todos que estãosofrendo esta catástrofe. Estou próximo a vocês e rezo por vocês”, afirmouFrancisco ao telefone, conforme nota da CNBB.

 

Na condiçãode arcebispo metropolitano de Porto Alegre, dom Jaime está a frente de 158paróquias distribuídas por 29 cidades gaúchas. Entre elas, algumas das maisseveramente atingidas pelos efeitos adversos das chuvas que começaram no últimodia 26 e se intensificaram a partir de 29 de abril, como Canoas e Eldorado doSul.

 

O arcebispode 63 anos de idade também preside a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil(CNBB) e o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). No último dia 6, com oRio Grande do Sul já em estado de calamidade pública, a organização que reúnebispos da América Latina e Caribe divulgou uma nota na qual prestasolidariedade à população. E convoca as pessoas a, em meio à “dramática situação”,transformar a solidariedade “em ações de sensibilização para ouvir os gritos daTerra que se exprimem nestes fenômenos climáticos”.

 

“Há temposos cientistas vêm nos alertando para a necessidade de uma especial atenção aoplaneta, à nossa casa comum”, comentou dom Jaime ao explicar o chamamento.Entrevistado pela Agência Brasil, o arcebispo lembrou que muitas das cidadesora afetadas já tinham sido atingidas em ao menos um dos episódios de chuvasextremas registrados ao longo do último ano no estado – só em setembro de 2023,quando um ciclone extratropical atingiu parte do território gaúcho, 54 pessoasperderam a vida.

 

“Estamosassistindo com frequência cada vez maior à ocorrência desse tipo de fenômeno[climático adverso]. Certamente, o que está acontecendo aqui no Rio Grande doSul, as proporções disso, alertam para a necessidade de ações urgentes paracontermos as mudanças climáticas. Infelizmente, ainda há quem negue oaquecimento global e a urgência da questão”, lamentou o arcebispo cujo brasãoarquiepiscopal remete a dois importantes corpos hídricos da região sul: oGuaíba, cujas águas transbordaram, inundando parte da região metropolitana dePorto Alegre, e o rio Itajaí-Açu, que corta a cidade natal de dom Jaime, Gaspar(SC), e que também apresenta um histórico de recorrentes cheias, causadoras demortes e prejuízos materiais.

 

Exploração

 

Nas últimasdécadas, a Igreja Católica vem, frequentemente, chamando a atenção de seusfieis para a crise climática. Em uma carta apostólica (a Octogesima Adveniens)de 1971, o Papa Paulo VI exortou os cristãos a assumirem a responsabilidade defazer frente às ameaças ao meio ambiente resultantes da “atividade humana e daexploração inconsiderada da natureza”.

 

Em 2015, opapa Francisco escreveu a primeira carta encíclica (a Laudato Si´)  integralmente dedicada ao assunto. Nela,Francisco sustenta que a Terra “clama contra o mal que provocamos ao planeta, àflora e à fauna  por causa do usoirresponsável e do abuso” dos bens naturais.

 

“É para esteaspecto que estávamos chamando a atenção na nota da Celam”, admitiu Dom Jaimesobre o comunicado que o conselho divulgou há poucos dias. “Precisamosconscientizar toda a sociedade de que, se cada um de nós lança na rua um papelde bala ou uma bituca de cigarro, o que parece insignificante acaba tendo umgrande impacto, mas mais que isso, necessitamos conscientizar amplos setores domundo econômico, empresarial e político, que precisam se convencer danecessidade de investimentos pesados para proporcionarmos um futuro e um mundomelhor para as próximas gerações.”

 

Apreocupação papal com os alertas de especialistas que afirmam que a ação humanajá produziu mudanças significativas no clima global, como a elevação datemperatura média global ecoa no Brasil, onde tem inspirado iniciativas como aCampanha da Fraternidade, que a CNBB promove anualmente para, entre outrascoisas, “despertar o espírito comunitário e comprometer os cristãos na busca dobem comum”.

 

No próximoano, o tema da campanha terá relação com a ideia de fraternidade e ecologiaintegral, conceito caro ao Papa Francisco, que o menciona várias vezes na cartaencíclica de 2015. Em 2017, o tema foi Fraternidade: biomas brasileiros edefesa da vida. Em 2016, Casa Comum, nossa responsabilidade. Em 2011, com o temaFraternidade e vida no planeta, a CNBB incentivou a uma mudança de mentalidadese de atitudes a fim de proteger a Terra.

 

“Ascampanhas sempre procuram trazer à tona uma temática atual e desafiadora. Sãouma forma de disseminar essas questões que merecem a atenção de toda asociedade e exigem que todos nós, de alguma forma, assumamos nossaresponsabilidade de zelar pelo futuro de nossa casa comum”, afirmou Dom Jaime,destacando a Campanha da Fraternidade como uma importante ferramenta demobilização social e de conscientização sobre temas socioambientais.

 

“É umainiciativa que atinge às comunidades, chegando às bases da sociedade, dascomunidades, das paróquias”, acrescentou o arcebispo, frisando o poder demobilização da igreja.

 

“Agoramesmo, temos aqui, no Rio Grande do Sul, paróquias, capelas, seminários ecolégios servindo de espaço de acolhimento para parte dos desabrigados pelaschuvas. Incluindo duas experiências muito dolorosas: um espaço nosso que estárecebendo crianças e em torno de 20 mulheres que sofreram abusos sexuais, eoutro que está recebendo autistas, sobretudo crianças, que precisam de atençãoespecial", comentou o arcebispo, acrescentando que ao menos dois hospitais de campanha funcionarão empropriedades da igreja.

 

"Ouseja, também a igreja está fazendo o que pode, do jeito que podemos, e com umadisponibilidade imensa. Como disse, o trabalho de reconstrução será muito duro,será muito difícil. Precisamos de solidariedade, e isso não tem faltado.Precisamos esperançar nosso povo e, ao mesmo tempo mantê-lo atento àsnecessidades que continuarão a exigir muito de todos nós”, concluiu Dom Jaime.

 

(Fonte: G1 Ceará)

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